Entre casais

Ontem estava conversando com a Isabella sobre os casais que admiramos. Quais foram os nossos critérios? Longevidade não significa muito (é possível ter uma relação prejudicial por décadas), tampouco quantidade de viagens, declarações apaixonadas, fotos no Instagram — a não ser que você seja vítima da cultura do amor romântico. É melhor observar qual a base da relação, se um congela o outro, como eles beneficiam outras pessoas como casal e individualmente, se há menos dramas em suas mentes, quais qualidades manifestam (alegria, sabedoria, generosidade) e – talvez o maior critério – o quanto a relação apoia o caminho de cada um, especialmente naquilo que não diz respeito algum ao namoro ou casamento. Passamos cerca de meia hora trazendo vários relacionamentos à mesa e quase nenhum passou pelo crivo. Assim como nós, aposto que a grande maioria dos casais tem poucos referenciais positivos. Não me refiro a fantasiar com um casal modelo, mas a relações que sejam exemplos bem próximos de como reduzir o controle, como lidar com a ausência de sexo, como se divorciar em paz, como atravessar uma experiência de traição sem tanto bate-cabeça. Casais que nos detalhem suas vidas e nos abram possibilidades. Sem bons referenciais, muitas mulheres demoram anos para perceber que o comportamento que sempre tomaram como natural, na verdade, está longe de ser saudável. O contato com outro casal mais leve aumenta o contraste, fica mais fácil sentir o quanto estamos pesados, o quanto a relação nos atrapalha. “Quem acha possível superar 100% do ciúme?”, perguntei, ano passado, para cerca de 20 pessoas. Ninguém levantou a mão. Por quê? Não temos exemplos! Quase todos os casais que conhecemos validam nossos preconceitos e perturbações. É raro encontrar um casal em genuína transformação – não apenas se fixando a novas crenças ou comportamentos. E, mesmo quando conhecemos, ainda mais raro é ouvi-los em uma longa conversa. Quando um casal se forma ao nosso redor, podemos ficar mais de olho, com profundo interesse, perguntando, de tempos em tempos, como eles estão lidando com os obstáculos. Durante um jantar, em vez de cair naqueles ataques disfarçados de brincadeiras (“Vocês não sabem como ele é preguiçoso!”), dá para usar a estrutura do casal para se relacionar com os outros: abrir condicionamentos, compartilhar insights e meios hábeis. Aprofundar as relações entre casais paradoxalmente faz com que olhemos mais para cada pessoa, sem pensar em pares. Normalmente essa abertura só acontece em uma crise, mas por que não começar antes? Ao acompanhar mais relações, vamos nos tornando referências elevadas uns para os outros, o que vira uma proteção: assim que surge o ciúme ou a raiva, lembramos que vamos ajudar muita gente se descobrirmos outro jeito de seguir, com espaço, sem reagir tanto. Se os problemas são coletivos, a solução precisa ser de código aberto. Já não estamos mais entre quatro paredes.

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Autor: GUSTAVO Gitti trabalha em Espaços de Transformação coletiva. Seu site de E gustavogitti.com


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