Valores

“Vários discípulos e um mestre viviam num templo arruinado”. Ali passavam os dias estudando e meditando; sobreviviam com doações e esmolas conseguidas em uma cidade próxima. No entanto, os discípulos vendo a necessidade de reformarem o templo, pois o mesmo estava em péssimas condições, foram conversar com o mestre. Como não possuíam fonte de renda para tal reforma, o mestre disse que cada um dos discípulos fosse até a cidade e roubasse objetos que pudessem ser vendidos, a fim de obterem os recursos necessários, porém, com uma única condição. Que não fossem vistos, para não jogarem por terra a boa reputação adquirida ao longo dos tempos.

Assim, os discípulos partiram para a cidade, com exceção de um. Ao perceber que ele havia ficado, o mestre aproximou-se e perguntou-lhe por que  ele não acompanhou os demais. Então, o discípulo explicou que ele não poderia roubar, ainda mais sem ser visto. Ele próprio estaria olhando para ele, vendo suas atitudes”.

Quantas vezes na nossa vida, agimos repetindo o que os outros fazem, alegando que todo mundo faz, sem refletir no verdadeiro sentido das nossas atitudes? Quantas vezes, conversamos com nossos filhos sobre atitudes, comportamentos, fazendo-os refletir se são éticos, morais?

Vivemos num mundo onde somos “treinados” a não pensar. Recebemos, diariamente, milhares de informações que nos impulsionam a agir. Subjetivamente, muitas delas nos fazem agir pelo senso comum, seguindo a maioria, achando que, se todo mundo faz, também posso fazer assim.

Além disso, os valores repassados estão na contramão do desenvolvimento de posturas solidárias e compassivas. Cada um procura atender seus próprios interesses, buscando cada vez mais bens materiais, sem se importar com a construção do seu caráter. Cobramos muito das outras pessoas, mas, não analisamos nossas atitudes.

Quantas vezes já presenciamos cenas com pais e filhos, cujas atitudes nos chamam a atenção pela imensa falta de limites da criança e a falta de autoridade dos pais? Quem tem filhos sabe bem o que é isso! Por vários motivos, os pais não sabem agir na maioria das situações. Será por falta de conhecimento, por comodismo, por falta de vontade ou por culpa, por não estarem presentes, tanto quanto gostariam? Por outro lado, as crianças, cada vez mais espertas, sabem bem como conseguir o que desejam, através de artimanhas e insistências, pois já experimentaram e deram certo.

É fácil julgar os pais como culpados de tudo isso. Porém, em qual modelo de educação eles se espelham? Onde buscam conhecimento para agir corretamente? Privam os filhos de frustrações, achando que assim conseguem sua felicidade?

Assim como o discípulo que se nega a roubar, ainda mais sem ser visto, nós, como pessoas íntegras que queremos ser, devemos refletir quais valores estamos construindo em nós e em nossos filhos. Agimos nós e agem eles empurrados pela maré, sem nos questionarmos se é correto? Agimos por que acreditamos no que estamos fazendo, convictos de que é o melhor, apenas por que estamos sendo observados ou por que poderemos ser descobertos?

No desenvolvimento do ser humano, os valores são ensinados e aprendidos. Como adultos, aprendemos com as atitudes dos outros, o que devemos e podemos assemelhar. Como pais, devemos e precisamos ensinar às crianças, as melhores atitudes. E, não existe meio melhor de fazê-lo, senão através do exemplo.

As crianças, desde muito pequenas, estão atentas ao que acontece ao seu redor. A maneira como são atendidas, como conversam com elas, como as carregam no colo, a maneira de alimentá-las, a maneira de banhá-las, trocar-lhes suas roupas são excelentes oportunidades de mostrarmos a elas como bem tratar uma pessoa, oferecendo-lhe aconchego, afeto, suprindo suas necessidades mais elementares. Bem assistida, a criança compreende e sente, mesmo que inconscientemente, que há alguém que cuida dela, conforta-a e se preocupa com seu bem-estar. Vai construindo dentro de si a solidariedade, a empatia, a compaixão.

E, se desde essa época já ensinamos valores, o que dirá às crianças maiores, cujo entendimento está se tornando real, a inteligência está em desenvolvimento, a consciência está se formando…  No cuidado com seus brinquedos, animais de estimação recebemos oportunidades diárias de ensinar-lhes a proteger, a cuidar, a se preocupar.

Uma vez aprendidos e vivenciados na família, no dia-a-dia, as crianças se tornam adolescentes solidários. Por mais que os questionamentos dessa fase fiquem aflorados, a rebeldia esteja em alta, eles sempre terão dentro de si, subsídios para agirem equilibradamente, em sociedade.

Saberão ir em direção contrária ao que os amigos estão fazendo, se for necessário, e se não condisser com seus aprendizados. E, se ainda assim o fizer, será sabendo que está errando. Então, será preciso assumir as consequências dos seus atos, pois, ele próprio estava assistindo suas atitudes.

moral

Autora: Beatriz Leite


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