Edição nº 5 · 2 de novembro de 2026 · Leitura de 8 min
Evidência em psicoterapia, em linguagem de consultório
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Oi, colega!
Empate é o mesmo que igual?
Nesta edição, a gente passa por terapia do esquema para transtornos de personalidade do grupo C, feedback de inteligência artificial revisado por psicólogos na ansiedade social e programas online para sintomas depressivos. No estudo da ansiedade social, com 263 adultos em seis grupos, o feedback da IA e o do terapeuta não se separaram (tamanho de efeito de 0,10, pequeno). Dá vontade de dizer que ficou igual. Só que, para afirmar que a IA não é pior, o estudo precisava passar no teste de não inferioridade. Nele existe um limite de quanto a IA pode ficar atrás do humano sem fazer diferença na prática, e o lado da faixa de incerteza em que a IA fica atrás não pode passar desse limite. Aqui a faixa saiu larga e passou do limite. Parecido, então, ainda não quer dizer equivalente. É como provar dois cafés com poucas xícaras. Não deu para apontar o melhor, nem dá para jurar que são iguais.
Sirva o café e vem com a gente.
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Aviso importante
Tudo o que vem abaixo sai do resumo de cada estudo, e resumo geralmente extrapola. Quem abandonou o estudo, o desfecho que mudou no caminho, a limitação que pesa e o que isso muda na prática do consultório: isso está no artigo inteiro, que especialistas leem e analisam para os membros.
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Terapia do esquema em grupo ou individual para transtornos de personalidade do grupo C: ensaio compara os formatos
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Tema
PERSONALIDADE |
Tipo de estudo
Ensaio randomizado · 369 participantes |
Em uma frase: A terapia do esquema em grupo e a individual ficaram à frente do cuidado especializado habitual no primeiro ano, por pouco, mas a vantagem na gravidade não apareceu aos 2 anos.
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O achado
permanência: 92,7% contra 78,2%
Segundo o resumo, no primeiro ano 92,7% dos pacientes seguiram na terapia do esquema individual, contra 78,2% no cuidado especializado habitual. No formato em grupo, a permanência foi de 84,9%, sem diferença clara em relação ao individual.
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Pra quem lê metodologia
Ensaio randomizado multicêntrico com 369 adultos ambulatoriais com transtorno de personalidade do grupo C, comparando terapia do esquema em grupo, individual e cuidado especializado habitual (sem duração fixa). Desfecho principal: gravidade do transtorno, com seguimento 2 anos após o início; a terapia do esquema durava 1 ano.
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☕ Um detalhe que conta: no formato individual, 92,7% dos pacientes seguiram no tratamento até o fim do primeiro ano.
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O que isso pode significar no consultório
Os participantes eram adultos em atendimento ambulatorial por transtorno de personalidade do grupo C. Na prática, vale olhar a permanência. No individual, quase todos ficaram até o fim do primeiro ano, e no grupo a permanência não ficou atrás de forma clara. O estudo não mostrou vantagem clara de um formato sobre o outro, então ele não escolhe por você. Aí a conversa com o paciente ganha peso, e uma pergunta simples ajuda. Como ele se imagina falando de si diante de outras pessoas?
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Nossa leitura
Aos 2 anos a gravidade dos sintomas já não mostrou diferença clara entre os grupos, embora a incerteza ainda deixe espaço para alguma vantagem. E os 2 anos contam desde o início: a terapia do esquema acabava em 1 ano, enquanto o cuidado habitual podia continuar.
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Só no PDF do membro: como só os tratamentos de esquema tiveram treino e supervisão centrais, parte da vantagem pode vir desse empenho a mais.
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Referência: Quest for optimal treatment of cluster-C personality disorders: evaluating schema therapy formats in a multicentre randomised controlled trial. BMJ Mental Health. DOI: 10.1136/bmjment-2026-302929. Texto feito apenas a partir do resumo.
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Feedback de inteligência artificial ou de terapeuta na TCC online para ansiedade social: ensaio com engano
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Tema
ANSIEDADE |
Tipo de estudo
Ensaio randomizado · 263 participantes |
Em uma frase: Feedback gerado por inteligência artificial (IA) e revisado por psicólogos teve resultado em ansiedade social que não se separou do feedback humano, embora os participantes esperassem menos credibilidade da IA.
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O achado
amostra: 263 adultos randomizados
Segundo o resumo, o feedback feito por IA e revisado por psicólogos não teve diferença estatística em relação ao feedback humano na redução de sintomas de ansiedade social (tamanho de efeito de 0,10, pequeno), com margem de incerteza larga. Também não ficou provado que a IA não fica atrás do humano além da margem definida pelos autores (a chamada não inferioridade).
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Pra quem lê metodologia
Ensaio randomizado com 263 adultos com transtorno de ansiedade social. Os grupos combinaram a origem real do feedback (IA ou humano) com o que foi dito ao participante sobre ela, além de autoajuda sem guia e lista de espera. O desfecho principal foi um questionário de sintomas de fobia social (SPIN).
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☕ Os participantes desconfiaram da máquina antes de começar, mas os sintomas não leram o remetente: no fim, não se viu diferença pelo que eles achavam que tinha escrito.
Desconfiaram da máquina, mas os sintomas nem olharam quem assinava a folha. |
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O que isso pode significar no consultório
A população foram adultos com transtorno de ansiedade social, a maioria em TCC online guiada, com feedback de IA sempre revisado por psicólogos. O resumo aponta que, antes do tratamento, a IA parecia menos crível aos participantes, mas não achou efeito da fonte real nem da crença sobre ela nos sintomas ou na aliança terapêutica. Vale ouvir do paciente o que ele espera de um retorno escrito por máquina e o que o faria confiar nele.
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Nossa leitura
Dizer que não houve diferença significativa não equivale a dizer que os dois feedbacks rendem o mesmo. A faixa de incerteza da diferença (o intervalo de confiança) foi larga, de -3,62 a 5,91 pontos no questionário, e o próprio resumo admite que a não inferioridade não foi estabelecida. O resumo não informa perdas de participantes nem seguimento após o tratamento.
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Só no PDF do membro: a lista de espera começou com sintomas um pouco mais altos e a análise principal não corrigiu isso, o que mexe de leve na comparação do tratamento com ela.
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Referência: AI-generated vs. human therapist feedback in internet-based CBT for social anxiety disorder: A six-arm randomized controlled trial with deception design. Internet Interventions. DOI: 10.1016/j.invent.2026.101012. Texto feito apenas a partir do resumo.
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Intervenção online com Qi Gong e programa cognitivo online para sintomas depressivos: ensaio com três grupos
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Tema
DEPRESSÃO |
Tipo de estudo
Ensaio randomizado · 303 participantes |
Em uma frase: Um programa online com Qi Gong e ativação comportamental e outro de base cognitiva reduziram sintomas somáticos de depressão mais do que a lista de espera; no humor, só o cognitivo se destacou da espera, e a qualidade de vida não teve diferença clara.
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O achado
303 participantes, 3 grupos
De acordo com o resumo, os dois programas online reduziram mais os sintomas somáticos de depressão do que a lista de espera. Nos sintomas afetivos, como o humor em si, só no programa cognitivo (MoodGym) a redução foi claramente maior do que na espera. O resumo não traz o resultado da soma do questionário, que era o desfecho principal.
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Pra quem lê metodologia
Ensaio randomizado pré-registrado com 3 grupos: Body, Breath and Mind (Qi Gong com ativação comportamental, pouco guiado), MoodGym (TCC online) e lista de espera. Participaram 303 pessoas com humor negativo e depressivo. Desfecho principal: sintomas depressivos (PHQ-9); secundário: qualidade de vida (SF-36).
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☕ Placar do corpo: os dois venceram a lista de espera. Placar do humor: só o cognitivo marcou contra a lista de espera.
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O que isso pode significar no consultório
A amostra reunia pessoas com humor negativo e sintomas depressivos. Ainda assim, o resumo aponta que um recurso online com Qi Gong e ativação comportamental, assim como o programa cognitivo, ficou à frente da lista de espera nos sintomas somáticos. Para quem prefere uma abordagem pelo corpo, os autores sugerem o programa como mais uma opção, sem benefício específico demonstrado; vale perguntar que tipo de prática combinaria com a rotina do paciente.
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Nossa leitura
A comparação com lista de espera não separa o efeito do programa da expectativa de receber algo. Os próprios autores dizem que os resultados não dão evidência de benefício específico da parte corporal. Quantos abandonaram cada programa e se o efeito durou depois do fim ficam de fora do resumo.
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Só no PDF do membro: o MoodGym foi medido com cinco semanas e os outros grupos com oito, o que deixa incerto quanto cada programa rende em relação ao outro.
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Referência: Comparing a body-oriented and a cognitive online intervention for adults with depressive symptoms: A three-arm randomized controlled trial. Internet Interventions. DOI: 10.1016/j.invent.2026.101016. Texto feito apenas a partir do resumo.
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Ciência por aí
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Ensaio randomizado com 723 adolescentes e 797 adultos em risco de suicídio, triados em prontos-socorros e na atenção primária, comparou ligações de apoio prático com mensagens de texto afetuosas de mão dupla, ambas somadas ao cuidado habitual. Em adultos, o escore de ideação e comportamento suicida foi menor com ligações aos 6 meses, sem diferença aos 12; em adolescentes, os dois grupos ficaram parecidos aos 6 meses, no desfecho principal, e as mensagens se saíram melhor só aos 12.
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| 02 |
Revisão de 26 ensaios randomizados sobre psicoeducação para TEPT, com 3.304 adultos: só 9 mostraram redução de sintomas maior que a do grupo de comparação, todos em formato digital e a maioria com orientação humana. A qualidade da evidência foi limitada e a revisão não teve registro prévio; os autores concluem que ela não basta como tratamento isolado, mas pode compor o cuidado em etapas.
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| 03 |
Acompanhamento de 2.367 pacientes com depressão maior por 52 semanas: 69 tiveram episódio de mania ou hipomania. Passar mais tempo abaixo do corte de sintomas hipomaníacos nas primeiras 8 semanas se associou a menor risco depois; o resumo diz que falta validar em outras amostras.
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| 04 |
Acompanhamento de 5.266 jovens britânicos: quem fazia exercício para controlar o peso aos 17 anos teve, aos 23, mais sintomas de transtorno alimentar (diferença média de 1,19 ponto numa escala de 0 a 15, já descontados outros fatores, modesta e maior nas mulheres), sem provar causa.
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| 05 |
Em 20.554 pacientes holandeses atendidos em saúde mental geral, com ansiedade, TOC ou TEPT, a idade fez diferença estatística pequena demais para contar em TEPT e ansiedade, e ela deixou de aparecer quando os grupos foram pareados pelos sintomas iniciais, mais baixos nos mais velhos. É uma comparação sem sorteio, e dela os autores tiram que as diretrizes podem ser as mesmas nos mais velhos.
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Neurociência em 1 minuto
Programa com atenção plena na recuperação de opioides parece mudar a resposta cerebral a sinais de droga
Num ensaio randomizado (participantes sorteados para cada grupo), pessoas com transtorno por uso de opioides, internadas numa clínica de reabilitação em Nova York, a maioria homens, fizeram 8 encontros semanais em grupo, de 2 horas, do MORE, que junta atenção plena, reavaliação de sinais de droga e saborear experiências boas, ou de terapia de apoio psicoeducativa. Nos 59 com exame analisado (24 do MORE e 35 do controle), o MORE reduziu o viés para a droga na atividade do giro frontal médio e de outras áreas, comparando a tentativa de diminuir a reação a sinais de droga com a de aumentar a reação a recompensas naturais. Num subgrupo de 38 (13 do MORE e 25 do controle) acompanhados por cerca de 4 meses, houve mais tempo de abstinência, com diferença modesta entre os grupos. Por ora, é pista de pesquisa sobre como o programa age, não orientação para a clínica. Limites: um só centro, amostra pequena, seguimento desigual entre os grupos, e o resumo não traz o resultado da fissura nem informa risco de viés.
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Quiz da semana
No estudo da ansiedade social, IA e humano não se separaram nos sintomas, mas não se provou que a IA não fica atrás. O que dá para dizer?
A) Que a IA equivale ao terapeuta, já que a diferença média foi pequena.
B) Que não se separaram, mas o estudo não mostrou que a IA fica à altura do humano.
C) Que o feedback da IA rende menos, já que os participantes esperavam menos credibilidade dele.
Toque numa opção para ver se acertou.
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Até a próxima,
Equipe PsicoCafé News
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Conteúdo informativo, não substitui o julgamento clínico. Apanhado feito a partir dos resumos. A leitura na íntegra e a síntese completa ficam para os membros.
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